Poucas práticas culturais atravessam tantos séculos quanto a dança do ventre, hoje reinventada por uma nova geração de mulheres brasileiras. Como elucida Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, esse resgate reúne tanto quem busca atividade física prazerosa quanto quem se interessa pela dimensão histórica e simbólica da dança. Registros sobre a origem da prática são controversos, com pesquisadores associando seus movimentos ondulatórios a rituais de fertilidade do Egito Antigo, ainda que a egiptologia não tenha encontrado comprovação direta em papiros da época. O termo surgiu na França, em 1893, e a modalidade chegou ao Brasil décadas depois, impulsionada pela migração de comunidades árabes entre as décadas de 1950 e 1970.
Nesta leitura, discutiremos como essa arte milenar se transformou em prática de bem-estar e identidade para tantas mulheres no país.
As origens controversas de uma dança milenar
A origem exata da dança do ventre permanece incerta, com registros que remontam a civilizações antigas como Egito, Babilônia, Mesopotâmia e Pérsia, todas associadas a rituais femininos ligados à fertilidade e à preparação para a maternidade. Uma das teorias mais difundidas sugere que os movimentos ondulatórios do abdômen imitavam contrações do parto, funcionando como forma simbólica de ensinar às mulheres o próprio processo de dar à luz, embora faltem evidências arqueológicas conclusivas que sustentem essa hipótese de forma definitiva.
Segundo menciona Daugliesi Giacomasi Souza, essa incerteza histórica não diminui o valor cultural da dança, e sim reforça sua condição de prática viva, moldada por diferentes povos ao longo de milênios até chegar ao formato conhecido atualmente. A expressão que batiza a modalidade só surgiu no fim do século XIX, cunhada na Europa a partir do contato ocidental com danças do Oriente Médio, processo que também introduziu boa parte dos estereótipos que a dança carrega até hoje.
Como a dança do ventre chegou e se firmou no Brasil?
A presença de dançarinas com alguma notoriedade no país remonta às décadas de 1950 a 1970, período de intensa migração de comunidades árabes para grandes centros urbanos brasileiros, especialmente São Paulo. Nos primeiros anos, a dança circulava quase exclusivamente em restaurantes e espaços de convívio dessas comunidades, até que mulheres de fora desse círculo começassem a se interessar e buscar aulas com as próprias dançarinas.

Daugliesi Giacomasi Souza indica que esse momento inicial marcou a transição de uma expressão cultural restrita para um mercado de ensino que cresceria nas décadas seguintes, formando escolas e certificações próprias em cidades como São Paulo. A necessidade de diferenciar profissionais qualificadas de iniciantes levou à criação de avaliações técnicas específicas, considerando critérios como domínio corporal, coerência com a cultura árabe original e capacidade de expressão em cena.
O que a ciência diz sobre os benefícios da prática?
Estudos acadêmicos brasileiros já investigaram os efeitos da dança do ventre sobre a saúde física e mental de suas praticantes, com resultados que apontam melhora na consciência corporal, na autoestima e na qualidade de vida de maneira geral. Mulheres entrevistadas em pesquisas sobre o tema relatam a dança como ferramenta que facilita a relação com o próprio corpo e com temas ligados à sexualidade feminina, muitas vezes tratados com desconforto em outros contextos.
Como enfatiza Daugliesi Giacomasi Souza, esse tipo de evidência ajuda a posicionar a dança do ventre além do entretenimento, aproximando-a de práticas terapêuticas reconhecidas por áreas como a educação corporal e a saúde integral. A combinação entre movimento físico, musicalidade e narrativa corporal explica por que tantas praticantes descrevem a experiência como transformadora, e não apenas como exercício físico convencional.
Por que a dança do ventre resiste a estigmas até hoje?
Apesar de sua origem ritualística e de seu valor artístico reconhecido em diversos países, a dança do ventre segue associada, por parte do público leigo, a uma sensualidade exacerbada e a estereótipos sobre a mulher que a pratica. Pesquisadores que estudam o tema apontam que boa parte dessa percepção nasceu da forma como o Ocidente reinterpretou a dança ao longo do século XX, muitas vezes reduzindo sua complexidade cultural a uma fantasia sobre o Oriente.
Sob a ótica de Daugliesi Giacomasi Souza, romper com essa visão reducionista passa por reconhecer a dança do ventre como expressão artística legítima, capaz de comunicar história, técnica e emoção sem depender do olhar externo que a sexualiza. Praticantes contemporâneas assumem cada vez mais esse discurso, tratando a dança como espaço de autoconhecimento e conexão com uma tradição que atravessou impérios antes de chegar aos estúdios brasileiros de hoje.
No fim, entender a história por trás dos movimentos muda a forma como se olha para essa dança, transformando um simples espetáculo visual em um capítulo vivo da cultura de diferentes povos ao longo do tempo.










